A crise de atenção
- Sophia Garcia
- há 2 dias
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Estudos comprovam como telas, redes sociais e IA estão remodelando nossa capacidade de foco.

Vivemos com a sensação constante de estar distraídos. A mente transita de um estímulo para outro, como sem permanecer tempo demais em um único pensamento. Nunca tivemos acesso a tanta informação — e, ao mesmo tempo, nunca foi tão difícil prestar atenção. A distração deixou de ser um desvio ocasional e passou a ser o estado padrão da experiência contemporânea.
Essa mudança não é apenas uma impressão subjetiva, a pesquisadora Dra. Gloria Mark, Professora de Informática da University of California Irvine, acompanha esse fenômeno desde 2004. Naquele ano, o tempo médio que uma pessoa permanecia focada em uma única tela era de 2 minutos e 30 segundos. Em 2012, esse número caiu para 75 segundos. Hoje, segundo os dados mais recentes da pesquisadora, a atenção média varia entre 44 e 50 segundos. Em apenas vinte anos, perdemos mais de dois terços da nossa capacidade de sustentar o foco.
Vídeos curtos, feeds infinitos e alertas constantes criaram um ruído permanente que acompanha todas as atividades do dia. A neuropsicóloga Barbara Jacquelyn Sahakian, da University of Cambridge, explica que esse tipo de conteúdo favorece a atenção à varredura (visual scanning) em relação à atenção sustentada — necessária para ler um texto longo ou desenvolver uma ideia complexa — treinando o cérebro para buscar novidade constante em vez de permanência.
Entre crianças e adolescentes, o cenário é ainda mais preocupante. Um estudo longitudinal do Karolinska Institutet, que acompanhou 8.324 crianças, identificou que o uso de redes sociais está diretamente associado a um declínio gradual na capacidade de concentração. Esse efeito não foi observado com televisão nem com videogames. O fator decisivo parece ser o scroll infinito e os loops de recompensa dopaminérgica característicos das plataformas sociais. Como o estudo acompanha os mesmos indivíduos ao longo do tempo, os pesquisadores indicam que a relação não é apenas de correlação: as plataformas estariam moldando a atenção, e não apenas atraindo quem já tem dificuldade de foco.
Nesse cenário, surge um novo fator de risco: a inteligência artificial. Pesquisas do MIT Media Lab indicam que, ao longo de quatro meses, usuários frequentes de sistemas de inteligência artificial apresentaram desempenho inferior em níveis neurais, linguísticos e comportamentais. O problema não é a tecnologia em si, mas o uso que substitui o pensamento em vez de apoiá-lo. Quando as ferramentas passam a “pensar por nós”, habilidades cognitivas deixam de ser exercitadas.
No fim, a crise da atenção é frequentemente tratada como falha individual: falta de disciplina, preguiça ou desinteresse. Mas os dados apontam para algo maior. Vivemos em um ambiente desenhado para fragmentar o foco, explorar impulsos e manter a mente em estado permanente de reação. Não estamos ficando menos inteligentes: estamos ficando dependentes.






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