A melhor mãe do mundo merece o Oscar?
- Eshiley Lislaine
- 17 de jan.
- 2 min de leitura

Dirigido por Anna Muylaert, a mesma cineasta de Que Horas Ela Volta?, A Melhor Mãe do Mundo acompanha a trajetória de uma catadora de recicláveis que foge da violência doméstica com seus filhos, atravessando São Paulo em uma carroça. Para proteger as crianças do medo, da fome e da dura realidade de se tornar “moradora de rua”, a mãe transforma a fuga em uma aventura. Nesse gesto, o filme revela a potência de uma mulher que tenta romper ciclos de violência — os mesmos que presenciou na infância, entre seus próprios pais.
Em busca de um futuro diferente para os filhos, ela ocupa as ruas, improvisa estratégias de sobrevivência e tenta ganhar dinheiro de forma honesta, recorrendo a amigos, estranhos, familiares e a qualquer pessoa de “coração puro” que a cidade coloque em seu caminho. A rua, aqui, não é apenas cenário, mas personagem viva de um sistema que empurra alguns para a invisibilidade enquanto exige que alguém lide com o que é descartado.
O filme escancara a violência familiar por meio de falas perturbadoras como: “casamento não é fácil, é normal apanhar, é normal ser traída”. Também aborda o assédio e o controle sobre o corpo que uma mulher ocupa, seja ela adulta ou criança. A narrativa nos atravessa ainda pela ingenuidade infantil, ao mostrar a história sob o olhar dos filhos, que tentam compreender aquele mundo hostil com a pureza que só a infância permite.

Violência contra a mulher, invisibilidade social, maternidade solo, desigualdade, resiliência e força feminina são temas que se entrelaçam ao longo da obra. Anna Muylaert conduz esses temas de forma poética e, ao mesmo tempo, crua. Não há exploração gratuita da dor, mas uma sutileza que nos deixa apreensivos em muitos momentos da trama. O incômodo é intencional e necessário.
A mensagem é clara: o filme é uma homenagem à força das mães que sustentam não apenas suas famílias, mas o próprio mundo, quase sempre de forma invisível. Mulheres que, mesmo em condições extremas, encontram coragem para criar futuros possíveis para seus filhos.
Por tudo isso, A Melhor Mãe do Mundo poderia, sim, ser uma potente representante do Brasil em premiações internacionais como o Oscar, mas para além do Oscar merece destaque do povo brasileiro.





Comentários